
Em fins de setembro deste ano, me peguei a sentir opressão no peito, uma tristeza indefinida, uma angústia e desassossegos sem causa aparente. Num meio de tarde, ao lançar o olhar para fora de casa, me dei conta de que a primavera já tinha alcançado o calendário e as chuvas tardavam.
Além disso, há dias o sol era escaldante, de luz forte e mais prata que dourada; o ar seco, sem brisa e o calor intenso, muito diferente do que ocorre na região onde resido há quase três décadas, no alto da cordilheira do espinhaço, em Diamantina-MG (desde que cheguei ouço ser este território de cerrado a caixa d´água do Vale Jequitinhonha).
Naquele instante tudo fez sentido e minha memória ganhou uma boa chacoalhada, intensificando os sentimentos à ânsia do choro, num misto de saudade e raiva. De imediato uma criança de mais ou menos dez anos veio roubar a cena.
Nascida na pequena cidade de Coronel Murta – antiga Itaporé – no Médio Jequitinhonha, na mesma rua do mercado municipal, aquela menina frequentava, todos os sábados, a tradicional feira do mercado, que na sua justa infantilidade, toda a cidade se encontrava na festa mais longa, animada, aromática, barulhenta e saborosa que se podia fazer.
Fruta, biscoito iscrivido, pão de queijo, brividade, galinhas, cereais, carne de sol, fumo de rolo, ovos, queijo fresco e cozido, pororoca, rapadura, quebra-queixo, legumes, grãos, verduras, farinhas, sabão de bolo…e o burburinho da gente do lugar.

Os sábados eram dias longos (olhando daqui parecem distantes um ou dois séculos, dadas as características do que se via ali, comparado ao que a história chama de modelo industrial.
E posso apenas convidar a quem não viveu essa experiência que vá vivê-la, com urgência! Esses lugares são um universo e, como tal, quase indescritíveis.
Porém alerto, parafraseando Fernando Pessoa, que nenhuma feira será mais bela do que a feira da minha aldeia)¹. E naquele sábado a menina andava pela feira, curiosa por compreender o clima de alegria alvoroçada que captava e que parecia contagiar até as paredes, ocupando todo aquele universo de sons, cheiros e cores.
Até que alguém perguntou a Seu Joaquim do Alagadiço, com um empolgado aperto de mão: “Tudo bem Seu Joaquim?” E este: “Agora tá bom dimais uai! Graças a deus a chuva chegou e agora tudo miora!!! A chuva e essa lubrininha que caiu a noite inteira dá sinal de que agora vai invernar, se deus quiser!”
A menina entendeu imediatamente aquilo que para ela era como a algazarra dos bem-te-vis que ouviu ao acordar, e mais ainda, como a aguardada revoada das andorinhas que apareciam a cada verão para dormir no mercado, provocando um alarido inesquecível para quem vivia ali nos arredores.
Naquele momento ela não teve dúvidas: as pessoas viraram andorinhas em revoada, festejando a chegada das águas, da primavera sempre tardia e a promessa de que no próximo ano a fome daria uma trégua, ainda que menor que o necessário.

Ela se lembrou da feira passada, dos dias anteriores, reviu e entendeu também o porquê dos frouxos apertos de mãos, só de pontas de dedos, desanimados. E pensou que talvez naquele ano não seria preciso fazer penitências². E entre andorinha do bando e criança observadora, se encheu daquela expansiva alegria. Acostumada ao convívio quase diário com a gente que vivia na roça – e com a roça – ela se incomodava com aquela gente que, a cada período de seca, tinha igualmente a aparência tão seca e desbotada quanto a terra, as árvores, os bichos estirados em frestas de sombras e os passarinhos em silêncio.
Tudo isso a contaminava também, e secava, e desanimava, e entristecia. Ninguém como Riobaldo em Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, para retratar tão divinamente essas experiências tão singulares! O semiárido – ou sertão como sempre o chamamos – é caracterizado por longas estiagens, muito calor e ar seco. O traço mais marcante da gente desses territórios – e também das plantas e bichos – é sua capacidade de conviver com essas adversidades e as estratégias criadas para suportá-las e superá-las.
Porém aquela menina foi vivenciando, no passar dos anos, o agravamento da seca, as chuvas raleando ou caindo de uma vez só, o rápido sumiço de nascentes e córregos onde a diversão era certa; o sumiço das gabirobas, bananinhas de macaco, brinquinhos, jambos e tantas outras frutas nativas que invadiam os arredores da cidade e faziam a festa da meninada.
Sem falar nas tanajuras e nos campos de cebolinha (lírio do campo), que por algumas semanas inundavam a cidade com seu cheiro inebriante. Muito se rogava a Deus, muita reza se oferecia, mas o que se via de fato era o desmatamento crescente, a mata dando lugar ao capim, sem se preservar sequer algumas árvores sob as quais o gado pudesse se proteger daquele sol escaldante.

Aliás, naquele tempo a menina não compreendia quando falavam que fazer aquilo era necessário para alimentar a criação. E as pessoas, podiam morrer de fome? Nas fazendas que só aumentavam de tamanho não se podia mais plantar comida de gente. Antes, o sertão parecia menos triste. Tinha também a fé, a espera e a alegria da chegada.
Para a menina, seu mundo foi raleando. Por muito tempo essas memórias tinham ficado meio escondidas em algum lugar da alma. Reapareceram no último setembro, com os incomuns dias secos e quentes, com o atraso das chuvas, agora também no espinhaço. Nos anos noventa quando cheguei me dei conta, com entusiasmo, de que tinha ganhado de volta a primavera. E não quis mais ir embora.
Lá, além da primavera, tinham banido também o mercado, que foi derrubado e deu lugar a um coreto de gosto duvidoso, descolado de qualquer elemento da nossa identidade.
Jamais entendi o despropósito disso; a ignorância e insensibilidade para perceber que memória e patrimônio material e imaterial adubam em nós as sementes de um amor fundante: à terra-mãe, às nossas sementes, aos ancestrais. Pode ser que tudo isto tenha tido sim um propósito: matar em nós as sementes desse amor, da coesão e da cumplicidade das memórias compartilhadas.
O certo é que ficou em mim outra cumplicidade, com Drummond e suas perdas irreparáveis provocadas pela mineração e traduzidas na pungente frase “Minas não há mais José e agora?” Ainda assim, ao contrário dele, decidi que voltar às raízes era uma necessidade, uma maneira de prosseguir mais íntegra na caminhada.
Talvez isso seja um capricho do sertão, que na perspectiva de Rosa, é um personagem, uma entidade que se entrelaça à nossa alma. Porém confesso que hoje tenho sentido um esquecido medo e insegurança, como aquela menina que cresceu e foi buscar a primavera. As incontáveis perdas há muito nos alertam; a sabedoria dos povos originários somada a estudos e prognósticos da ciência há muito nos alertam da urgência de reflorestar, de nos envolver com a terra, em seu sentido mais profundo.
Mas a mineração industrial tem engolido e ameaçado cada vez mais as terras do sertão e do cerrado, em sua irremediável voracidade. O agronegócio não tem escrúpulos na sua ganância desenfreada. Povos originários, comunidades tradicionais têm apontado caminhos e tecnologias para se garantir vida e bem viver.
E com o sertão na alma, tomo a afirmação interrogativa entoada pelos cantadores Dalton Machado e Vânia Moraes num festival realizado na minha terra, pelos idos de 1985: “ainda há tempo e jeito de se reparar tanto mal?”
