Sá Amélia ao centro, com a neta à esquerda e a filha à direita.
Sá Amélia resiste: barro branco, bodoque e pescaria
Enquanto o Censo 2022 revela um aumento expressivo da autodeclaração indígena no Brasil, histórias silenciosas no Vale do Jequitinhonha mostram as raízes profundas dessa resistência. Em Coronel Murta, a memória de uma mulher que pescava com lança de aroeira conecta o presente urbano ao passado ancestral dos povos Aranã e Tocoyós.
A memória de Sá Amélia
Enquanto criança, minhas caminhadas pelas ruas da pequena e semiárida Coronel Murta eram marcadas por um cenário contrastante — do córrego lindo com uma pequena ponte, mas poluído pela falta de rede de esgoto, às margens vastas e acolhedoras do Rio Jequitinhonha. Essas paisagens, testemunhas de tempos idos, serviam de palco para as histórias não ditas e fragmentos de resistência que permeavam a vida de Sá Amélia.
Eu me lembro perfeitamente, como se fosse hoje, que antes de concluir a subida da íngreme ladeira de terra, meu olhar era atraído para aquele casebre. Menor que os demais, distinguia-se de qualquer casa que eu já tivera visto: o piso, as paredes e o fogão à lenha eram cuidadosamente preenchidos por barro branco, que com certeza Sá Amélia lustrava de quando em quando. Os panos coloridos e baratos, comprados a metro na única loja de tecidos dali, substituíam as portas dos cômodos internos.
Eu podia imaginar o pouco que restava do casebre: a cozinha com panelas areadas, o quintal com uma possível horta e o fogão certamente com uma bulha de barro para ferver água. “Íamos à noite para o rio, ela pescava de anzol, mas dizia pra nós que também pescava com lança feita de pau de aroeira”, relata Teresa, neta de Sá Amélia. “Ela dizia que os peixes dormiam nas margens e ela jogava a lança.”
A imagem de Sá Amélia, silhueta recortada contra o céu noturno, empunhando uma lança como seus ancestrais, é um testemunho vivo de uma herança que se recusava a morrer.
A história por trás da história
Os gestos de Sá Amélia — a pesca com lança, o trato com o barro — não eram aleatórios; eram ecos de uma memória antiga. Sua presença em Coronel Murta ocupava o mesmo espaço geográfico de uma narrativa muito mais ampla. Aquele chão, antes de ser cidade, era território de disputa e morada dos povos da família Macro Jê, tronco linguístico ao qual pertencem os Aranã e os Tocoyós.
Segundo estudos da indigenista Geralda Soares, os Aranã mantiveram a posse de grande parte de seu território tradicional nos vales dos rios Mucuri e Jequitinhonha até meados do século XIX, quando a região começou a receber imigrantes alemães incentivados pelo Estado brasileiro.
A historiadora local Mery Murta relata:
“Se for para voltar lá atrás do passado, quem habitava o território eram os povos indígenas Tocoyós, que moravam na fazenda Tocoyós em Coronel Murta. Eles foram expulsos pelos desbravadores, que lá chegaram por volta de 1700. Expulsaram, muitos foram dizimados e outros se tornaram escravos dos senhores que ocuparam suas terras, inclusive meus parentes ancestrais fizeram isso. Foram índios Botocudos, Tocoyós, Aranãs…”
Este relato nos oferece um vislumbre do turbulento período de colonização. É possível que os antepassados de Sá Amélia tenham vivido essa história de resistência e adaptação. Mas essa herança, como o peixe escorregadio nas águas do Jequitinhonha, era difícil de agarrar. “Ela nunca falou para nós que era indígena, sobre sua origem, nada.”, revela Teresa.
O silêncio como estratégia
O silêncio de Sá Amélia sobre suas origens não é incomum; é uma cicatriz histórica. No final do século XIX, muitos povos indígenas da região, incluindo os Aranã, foram forçados a buscar abrigo na tutela eclesiástica. Após revoltas e massacres, a população indígena remanescente se dispersou, expropriada de seu território e privada de sua língua. O silêncio sobre as origens indígenas tornou-se, para muitos, a única estratégia possível de sobrevivência.
Considerando a história da região e as tecnologias de sobrevivência dominadas por Sá Amélia, surge a pergunta inevitável: seria ela descendente direta dos Aranã ou dos Tocoyós? A ausência de uma resposta certa não é uma falha de memória da família, mas sim a prova do sucesso do processo de apagamento colonial.
“Nosso povo tinha medo de falar que era indígena”, diz Antonio Pankararu, morador da Aldeia Cinta Vermelha Jundiba, próxima a Coronel Murta.
“Hoje tenho orgulho e me emociono comigo mesmo, sou indígena brasileiro e precisamos juntar nossos parentes”.
Considerando a história da região e as tecnologias de sobrevivência dominadas por Sá Amélia, surge a pergunta inevitável: seria ela descendente direta dos Aranã ou dos Tocoyós? A ausência de uma resposta certa não é uma falha de memória da família, mas sim a prova do sucesso do processo de apagamento colonial. O silêncio sobre a etnia exata é, em si, uma cicatriz da história.
O relatório “Aranã: a luta de um povo no Vale do Jequitinhonha” (CEDEFES/2003) revela que as famílias Aranã atuais reivindicam terras que eram de um antigo aldeamento, afirmando descender de Manoel Caboclo, um remanescente trazido criança para trabalhar nas fazendas do fundador da cidade.
A ausência de uma resposta certa sobre a etnia de Sá Amélia não é uma falha de memória da família, mas sim a prova do sucesso do processo de apagamento colonial, mas também de resistência. O silêncio sobre a etnia exata é, em si, uma denúncia.
Uma “cadeirinha no céu”: A apropriação da terra
A história da terra em Coronel Murta ilustra perfeitamente as camadas de apropriação que forçaram esse silêncio. Mery Murta oferece um relato revelador sobre como o território mudou de mãos:
“As terras de todo o Alagadiço pertenciam a tia Mariquinha, tudo era dela, era um latifúndio mesmo. Infelizmente a gente não pode fugir da história, minha tia-avó, né, então… eles chegaram e invadiram, tomaram mesmo (…). E aí você sabe […] que o bispo prometeu pra ela, que se ela desse as terras, ela ganharia uma cadeirinha no céu? E aí ela fez tudo de porteira fechada e depois entregou tudo para a igreja…”
Este episódio demonstra como as terras, já tomadas dos povos indígenas, continuaram a mudar de mãos através de estratégias que misturavam poder e religião. A promessa de uma “cadeirinha no céu” revela os métodos empregados para concentrar propriedades nas mãos da Igreja.
Curiosamente, o destino dessas terras tomou um rumo inesperado décadas depois, em 1982, com a chegada de Dom Enzo. Segundo Mery, o bispo, “que era muito de um espírito progressista, socialista e humanista”, distribuiu as terras para as pessoas que moravam no território, realizando uma espécie de reforma agrária local. Ele doou terras para posseiros, para indígenas Pankararu trazidos de Pernambuco e para indígenas Aranã.
Esta ação, embora não pudesse desfazer séculos de injustiças, representou um passo simbólico na direção de reconhecer e parcialmente reparar o deslocamento histórico.
A presença indígena hoje: muito além das aldeias
Essa complexidade histórica se reflete nos dados atuais. A distribuição da população indígena em Minas Gerais revela concentrações significativas, mas também uma enorme dispersão.
São João das Missões lidera com 10.398 indígenas, refletindo a força Xakriabá. Porém, a capital, Belo Horizonte, surge em segundo lugar com 2.692 indígenas, demonstrando a crescente presença nos centros urbanos.
Mais revelador ainda é o fato de que, embora apenas 18 cidades mineiras possuam territórios indígenas oficialmente reconhecidos, indígenas residem em 690 dos 853 municípios mineiros. Essa presença difusa em mais de 80% do estado desafia a percepção comum de que indígenas estão confinados a reservas. Eles são parte integrante do tecido social, muitas vezes invisibilizados em cidades sem aldeias demarcadas — exatamente como foi o caso de Sá Amélia e sua família.
Esse desconhecimento sobre a presença indígena “ao nosso lado” ficou evidente em nossa investigação com crianças de Coronel Murta. A maioria retratou indígenas apenas como figuras da Amazônia, isolados na floresta. Esses desenhos contrastam fortemente com a realidade dos dados do Censo e com a história viva de pessoas como Sá Amélia.
Marco Temporal e Resistência
Hoje, essa história de resistência está no centro do debate sobre o Marco Temporal. A tese ameaça reverter direitos sobre terras que, como vimos na história de Coronel Murta, foram tomadas através de séculos de violência e acordos escusos.
Enquanto o debate se desenrola em Brasília, no Vale do Jequitinhonha, o legado de Sá Amélia continua vivo. Nas últimas eleições em Coronel Murta, cinco candidatos concorreram se autodeclarando indígenas — um sinal de que o medo de falar a própria origem está dando lugar ao orgulho.
E na memória de Teresa, a imagem permanece intacta: a avó, o barro branco e a lança de aroeira, símbolos de uma identidade que o tempo não conseguiu apagar.
