Mina de lítio em operação - Foto: Sigma Mineração (site)
A promessa de que a extração de lítio transformaria a realidade socioeconômica de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, choca-se com os indicadores fiscais, sanitários e sociais consolidados de 2024 e 2025.
Uma investigação do Diverso Jornal, baseada em dados do Portal da Transparência, DATASUS, IBGE e Agência Nacional de Mineração (ANM) expõe um cenário de desequilíbrio nas contas públicas, agravamento da saúde da população e um conflito cultural sobre a vocação produtiva da região.
Premissa de receita que não se concretizou
A gestão municipal de Araçuaí operou, nos últimos dois anos, sob uma premissa de receita que não se concretizou. A Lei Orçamentária Anual (LOA) incorporou os cenários de expansão econômica projetados pelo setor mineral, mas os dados da ANM mostram outra realidade.
Em 2024, a Prefeitura estimou uma arrecadação total de R$ 270 milhões. A execução real, no entanto, estagnou em R$ 147,2 milhões, resultando em uma frustração de receita de R$ 122,8 milhões.
O descompasso deve-se, primariamente, à volatilidade da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). O setor de lítio em Minas Gerais encolheu 59% em valor de operação: caiu de R$ 2,7 bilhões (2023) para R$ 1,1 bilhão (2024).
Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.
Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.
A disparidade entre a promessa e a entrega já é admitida pela gestão. Em reportagem da Agência Pública (Dez/2025), o prefeito Tadeu Barbosa reconhece que a região vive “um paradoxo de coisas boas e ruins”.
“A Sigma entra, traz diversificação e melhoria, só que não é como salvadora da pátria. (…) Criou-se a expectativa de uma prosperidade absoluta, mas isso não se concretizou ainda’, afirmou o prefeito à reportagem, confirmando que a ‘redenção’ econômica vendida pelo mercado financeiro não condiz com a realidade imediata do município.”
Tadeu Barbosa / prefeito de araçuaí
Premissa de receita que não se concretizou
A gestão municipal de Araçuaí operou, nos últimos dois anos, sob uma premissa de receita que não se concretizou. A Lei Orçamentária Anual (LOA) incorporou os cenários de expansão econômica projetados pelo setor mineral, mas os dados da ANM mostram outra realidade.
Em 2024, a Prefeitura estimou uma arrecadação total de R$ 270 milhões. A execução real, no entanto, estagnou em R$ 147,2 milhões, resultando em uma frustração de receita de R$ 122,8 milhões.
O descompasso deve-se, primariamente, à volatilidade da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). O setor de lítio em Minas Gerais encolheu 59% em valor de operação: caiu de R$ 2,7 bilhões (2023) para R$ 1,1 bilhão (2024).
Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.
Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.
A disparidade entre a promessa e a entrega já é admitida pela gestão. Em reportagem da Agência Pública (Dez/2025), o prefeito Tadeu Barbosa reconhece que a região vive “um paradoxo de coisas boas e ruins”. Segundo ele: “A Sigma entra, traz diversificação e melhoria, só que não é como salvadora da pátria. (…) Criou-se a expectativa de uma prosperidade absoluta, mas isso não se concretizou ainda’, afirmou o prefeito à reportagem, confirmando que a ‘redenção’ econômica vendida pelo mercado financeiro não condiz com a realidade imediata do município.”

Saúde pública em Araçuaí
A correlação entre a atividade minerária e o aumento de doenças respiratórias foi verificada através de uma análise comparativa. A reportagem utilizou Rio Pardo de Minas como “cidade controle” — município vizinho com características climáticas e geográficas idênticas, mas sem mineração a céu aberto.
Os dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/DATASUS) apontam divergência estatística após o início da operação intensiva em Araçuaí/Itinga:
- Zona de Mineração: As internações por doenças respiratórias saltaram de 353 (média histórica) para 681 em 2024 — aumento de 93%.
- Cidade Controle (Rio Pardo): No mesmo período, os registros mantiveram-se estáveis ou apresentaram queda (redução de 19% em 2023).
O dado corrobora o inquérito do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que identificou violação dos limites de material particulado em suspensão na área de influência da mina.
Recurso público X dinheiro circulante
Para compreender o impacto econômico no território, é necessário distinguir o recurso público (imposto) da riqueza econômica (dinheiro circulante). Enquanto a mineração gera CFEM para o caixa da Prefeitura, a agricultura irriga diretamente a economia local.
Dados do IBGE (PAM 2024) indicam que a bananicultura em Araçuaí gerou R$ 28,7 milhões em valor de produção. Diferente do imposto, esse capital entra diretamente no bolso do produtor, paga salários semanais e movimenta o comércio local.

A eficiência do uso do solo reforça a disparidade: ocupando apenas 17,34% da área plantada, a banana responde por quase 80% do valor bruto da produção agrícola municipal.
Narrativa do Atraso X potência regional
O debate econômico ganhou contornos culturais após declarações de Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium. Em apresentações para investidores, a executiva referiu-se ao passado recente da região utilizando termos como “mulas de água” e “geração perdida”, sugerindo que o trabalho na agricultura (“o Bananal”) seria uma condenação e sinônimo de subdesenvolvimento.
“Somos comprometidos com nossos funcionários em todos os seus direitos. Respeitamos todas as licenças e procedimentos legais”, afirma a gestora. A fazenda onde atua produz cerca de 500 toneladas mensais de bananas prata e nanica, abastecendo mercados exigentes como o Rio de Janeiro.”
Além da geração de emprego, Ramalho destaca o impacto social direto, citando a doação mensal de 15 toneladas de alimentos pela empresa FBL. “A banana gera renda para nossa região, movimenta o comércio e coloca alimento na mesa de milhares de pessoas. Isso é compromisso social real e concreto. Enquanto alguns falam, nós aqui fazemos”, conclui.
Os dados do IBGE (PAM 2024) corroboram a fala da gerente e desmentem o estigma de improdutividade, revelando um mosaico vibrante:
- O Ouro Vermelho (Urucum): O Vale consolidou-se como potência na produção de Urucum, gerando R$ 7,3 milhões em riqueza.
- O Doce do Semiárido (Abacaxi): A cidade de Berilo desponta com uma produção que gerou R$ 1,1 milhão.
- A Força da Banana: Além de Araçuaí, o município de Jequitinhonha gerou R$ 9,6 milhões com a cultura.

Judicialização
O descompasso entre o discurso de sustentabilidade (“Lítio Verde”) e a realidade local resultou em uma Ação Civil Pública (ACP) movida pelo MPMG contra a mineradora. A ação solicita o bloqueio de R$ 50 milhões para garantir indenizações por danos morais e sociais coletivos.
O inquérito civil identificou impactos estruturais, como rachaduras em 50% das casas vistoriadas nas comunidades vizinhas, e descreve uma situação de “aprisionamento” social, onde famílias dependem de autorização da empresa para transitar em áreas historicamente comunitárias. O MP classifica parte da publicidade da empresa como greenwashing, apontando omissão sobre os passivos ambientais reais da operação.









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