Rio Jequinhonha em São Gonçalo do Rio das Pedras

O Vale do Jequitinhonha não é um problema a ser resolvido, mas uma solução que insistem em ignorar. Nossa terra guarda riquezas hídricas e culturais únicas, sustentadas por uma resiliência histórica que enfrentou o êxodo e o monocultivo. No entanto, essa vocação para a vida está sob o ataque de uma nova onda de colonização predatória, que troca a saúde de nossa gente pelo lucro rápido do lítio.
As riquezas: o Vale que brota
Antes de qualquer rótulo de carência, o Jequitinhonha é sinônimo de abundância criativa e natural. Somos o berço de uma tecnologia social que o mundo admira, onde o barro vira arte nas mãos de mestras e a convivência com o semiárido gera saberes ancestrais.
A nossa maior joia não brilha como minério, mas corre como vida: a Chapada do Lagoão. Esta “caixa d’água” natural é o coração pulsante que garante o equilíbrio climático e o abastecimento de aquíferos vitais. É essa terra fértil que permite a plantação de bananas e a fruticultura vigorosa, provando que o solo do Vale, quando tratado com respeito e não com dinamite, devolve alimento, renda e dignidade. Onde a agricultura familiar prospera, a economia gira e a comunidade se fortalece.

As Resiliências: a força de quem fica
Essa riqueza só se manteve de pé porque o povo do Vale é forjado na resistência. Nossa história é marcada pela cicatriz das “viúvas de marido vivo”: mulheres que, com coragem monumental, assumiram o comando das famílias e da cultura local enquanto seus companheiros eram forçados a migrar para os canaviais de São Paulo e Goiás. Foram elas que guardaram a identidade do território enquanto o capital externo sugava nossa força de trabalho.
Essa mesma resiliência se levantou contra o deserto verde. Tentaram cobrir nossa diversidade com a monocultura do eucalipto, prometendo progresso, mas entregando solo seco e pouquíssimos empregos. O contraste é brutal: enquanto o eucalipto exaure as nascentes e expulsa o homem do campo, o bananal e a roça de toco fixam as famílias, preservam a água e garantem a soberania alimentar. O Vale aprendeu a duras penas que monocultura — seja de árvore ou de minério — não enche prato nem cria futuro.
Colonização Predatória: O Buraco que Cavam
Hoje, a lógica colonial se sofistica e se torna ainda mais letal com a chegada da mineração a céu aberto. O que empresas como a Sigma Lithium chamam de “Vale do Lítio” é, na prática, a reedição do ciclo exploratório, agora com impactos irreversíveis. Diferente da CBL, que operou por 30 anos com lavra subterrânea sem colapsar o sistema de saúde, o novo modelo open pit escolheu o lucro em detrimento dos pulmões da população.
Os dados do DataSUS não mentem e denunciam o custo dessa invasão:
- Colapso Sanitário: Entre 2017 e 2024, período de instalação desse modelo predatório, as internações por doenças respiratórias explodiram 93% em Araçuaí e Itinga.
- Morte no Ar: As mortes na zona da mina cresceram 87,5%.
- Irresponsabilidade: Em 2023, sensores monitorados pelo MPMG apontaram violações nos limites de poeira em 100% das medições da Sigma.
Para agravar, a fiscalização é um teatro de portas fechadas. A Operação Rejeito da Polícia Federal revelou que a corrupção corroeu a ANM, deixando a raposa cuidando do galinheiro. Enquanto a Atlas Lithium ameaça avançar sobre as águas do Lagoão, o Vale corre o risco de repetir o destino de outras zonas de sacrifício: ser deixado apenas com a cratera, a poeira e o luto, enquanto a riqueza viaja para longe.
O Jequitinhonha é potente e resiliente, mas não é indestrutível. Defender nosso território é escolher a vida que brota da terra contra a morte que vem da poeira.

“Eles olham para o mapa e veem cifras, minério e cavas. Nós olhamos e vemos nossa história, nossa infância e nossa vida correndo como água. Defender o Jequitinhonha não é apenas uma pauta política ou econômica. É defender quem somos. Porque, muito antes das máquinas chegarem para rasgar o chão, um rio já corria aqui. E esse rio não morre no mar; ele vive em nós.” (Katia Torres)
🎶 Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual, sem fim, minha terra
Passava dentro de mim...
Passava como se o tempo
Nada pudesse mudar
Passava como se o rio
Não desaguasse no mar... 🎶
(Música de Tadeu Franco)
