Mulher recebe a vacina Butantan-DV em escola de Botucatu (SP) - Foto: Instituto Butantan
O Ministério da Saúde iniciou neste janeiro de 2026 a aplicação da primeira vacina contra a dengue totalmente desenvolvida no Brasil e em dose única. A estratégia piloto contempla três municípios brasileiros, incluindo Nova Lima, em Minas Gerais, além de Botucatu (SP) e Maranguape (CE). O objetivo da pasta é vacinar a população entre 15 e 59 anos nessas localidades para produzir evidências técnicas sobre a redução da transmissão da doença e planejar a expansão para o restante do país.
Tecnologia nacioal e eficácia
Aprovada pela Anvisa recentemente, em 26 de novembro de 2025, a vacina Butantan-DV é um marco da ciência nacional. Desenvolvida pelo Instituto Butantan com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ela difere dos imunizantes atuais por exigir apenas uma dose. O BNDES aprovou apoio financeiro no valor de R$ 32 milhões à fundação para a conclusão do desenvolvimento de vacinas para rotavírus, dengue e leishmaniose canina, além dos respectivos testes clínicos. O valor total do projeto é de R$ 37 milhões e a participação do BNDES é de 86% do investimento total. Essas vacinas farão parte do Programa Nacional de Imunização – PNI, do Ministério da Saúde. No caso da vacina para rotavírus, o desenvolvimento permitirá a substituição das importações.
O projeto será financiado com recursos não reembolsáveis do FundoTecnológico (Funtec) do BNDES. O Funtec destina-se a apoiar projetos de interesse estratégico para o país, que tenham como objetivo estimular o desenvolvimento tecnológico e a inovação, em conformidade com os programas e políticas públicas do governo federal.
A eficácia foi comprovada por estudos clínicos de fase 3 liderados pelo próprio Butantan em 14 estados brasileiros. A pesquisa, que acompanhou mais de 16 mil voluntários por cinco anos, demonstrou eficácia global de 74%, com redução de 91% nos casos graves e 100% de proteção contra hospitalizações para os quatro sorotipos do vírus.

O Instituto Butantan também informou que já iniciou o recrutamento de voluntários de 60 a 79 anos no Rio Grande do Sul e Paraná para ensaios clínicos, visando futura ampliação da faixa etária permitida.
Para quem atua na linha de frente do atendimento, a incorporação de uma tecnologia nacional ao calendário é vista como uma ferramenta essencial de controle sanitário. Onira Gianasi, enfermeira do Sistema Único de Saúde (SUS) há 23 anos, destaca que o imunizante chega para evitar a repetição de cenários críticos de sobrecarga hospitalar.

“A vacina veio para diminuir os casos de dengue, de internações e de mortalidade. Em 2024, a gente viu o boom de casos que teve, muitas mortes e internações. Tudo isso a gente consegue combater através de vacinação. É um grande avanço para o país produzir essa vacina.” Onira Gianasi
Gianasi reforça ainda o papel da ciência nacional na defesa da saúde pública. “A vacina da dengue no SUS é essencial, é mais uma vacina para contribuir com a gente. Viva o SUS por isso, viva a ciência”, completa.
Estratégia de imunização em massa
Nesta etapa inicial, foram distribuídas 204,1 mil doses, sendo 64 mil destinadas especificamente ao município mineiro de Nova Lima. A meta ambiciosa da estratégia piloto é imunizar até 90% do público-alvo nessas cidades, segundo o Instituto Butantan.
A escolha dos municípios levou em conta o histórico de participação em estudos de efetividade vacinal. Durante um ano, especialistas monitorarão a incidência da doença e possíveis eventos adversos nessas regiões.
Para o público geral fora das cidades-piloto, a vacinação dependerá da disponibilidade de doses e da capacidade produtiva. Enquanto a nova vacina não chega a todo o território, o imunizante japonês (duas doses) continua disponível no SUS para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.
Cenário epidemiológico no Vale do Jequitinhonha
Os dados corroboram a preocupação citada pela enfermeira sobre o período anterior, mas mostram uma tendência de estabilização. Em Minas Gerais, o recuo foi expressivo. Segundo dados consolidados do Painel de Monitoramento da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), o estado registrou 150 óbitos em 2025, uma redução drástica em comparação a 2024, ano marcado pela pior epidemia da história mineira, quando foram confirmadas 1.307 mortes pela doença.
No Vale do Jequitinhonha, os números mostram o tamanho do desafio enfrentado e o alívio recente. Cidades polo ilustram bem essa oscilação. Diamantina saiu de 6.651 casos confirmados e três óbitos no pico da epidemia para apenas 16 confirmações em 2025. Araçuaí, que teve 2.561 casos e uma morte em 2024, registrou apenas 5 casos no ano seguinte.
Outros municípios seguiram a mesma tendência de queda. Itaobim viu seus números despencarem de 876 confirmações e um óbito para nenhum caso confirmado em 2025. Capelinha, que teve um dos maiores surtos da região com 3.131 confirmações em 2024, reduziu para 340 casos no ano seguinte. Minas Novas também acompanhou o movimento, baixando de 93 casos confirmados para 36. Já Almenara, que registrou 285 confirmações em 2024, também viu seus índices recuarem.
| Indicador | 2024 (O Pico) | 2025 (A Queda) | Variação |
|---|---|---|---|
| Casos Prováveis | 58.969 | 2.630 | 📉 -95,5% |
| Casos Confirmados | 42.038 | 1.134 | 📉 -97,3% |
| Óbitos Confirmados | 27 | 0 | ✅ Zerado |
Distribuição municipal por níveis de risco
A distribuição dos municípios por faixas de risco evidencia um predomínio de localidades em níveis intermediários ou elevados de circulação viral. As categorias classificadas como “Baixa” e “Silenciosa” representam, em conjunto, 39,3% das cidades avaliadas, enquanto os grupos “Média”, “Alta” e “Muito Alta” somam 60,7% do total.
Observa‑se ainda que 17,9% dos municípios permanecem na faixa de maior intensidade de transmissão (“Muito Alta”), indicando a persistência de focos concentrados de atividade viral. A categoria intermediária (“Média”) reúne 35,7% das cidades e corresponde ao maior contingente municipal dentro da distribuição atual, caracterizando um cenário de instabilidade epidemiológica em que pequenas variações de comportamento populacional ou vigilância sanitária podem alterar rapidamente o enquadramento de risco.
📊 Raio-X do Risco: como estão as cidades do Vale em 2025
| Classificação de Risco | Qtd. Municípios | Percentual | O que isso significa? |
|---|---|---|---|
| Muito Alta | 10 | 17,9% | Epidemia fora de controle (Emergência) |
| Alta | 4 | 7,1% | Situação de alerta máximo |
| Média | 20 | 35,7% | Vírus circulando, requer atenção |
| Baixa | 21 | 37,5% | Situação controlada |
| Silenciosa | 1 | 1,8% | Sem registros recentes |
| TOTAL | 56 | 100% | – |
📊 Do Pico à queda: Comparativo regional consolidado (2024 vs. 2025)
Após um 2024 com surto histórico, a região viu a curva epidemiológica despencar. Em 2025, os casos confirmados recuaram 97%, caindo de 42 mil para pouco mais de mil em toda a região. O dado mais celebrado, contudo, é o de óbitos: de 27 mortes confirmadas no ano anterior, o Vale conseguiu zerar as perdas fatais para a dengue no último ciclo.
| Indicador | 2024 (O Pico) | 2025 (A Queda) | Variação |
|---|---|---|---|
| Casos Prováveis | 58.969 | 2.630 | 📉 -95,5% |
| Casos Confirmados | 42.038 | 1.134 | 📉 -97,3% |
| Óbitos Confirmados | 27 | 0 | ✅ Zerado |
Apesar da melhora nos indicadores, as autoridades sanitárias mantêm o estado em nível de atenção neste início de 2026. O alerta se deve ao período sazonal de chuvas, que favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti .
Prevenção e estratégia: o exemplo de Araçuaí

Se os números de 2025 trazem alívio, eles não são fruto apenas do acaso. Em Araçuaí, a organização do combate ao vetor evoluiu significativamente desde os surtos passados. Erick Cayres, enfermeiro do Hospital de Araçuaí e membro do Comitê de Arboviroses, atua no município desde 2013 — ano que ele recorda como “atípico” e de muito aperto — e testemunhou essa profissionalização.
Segundo Cayres, o município hoje trabalha com reuniões mensais e divide a cidade por estratos para monitorar o Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa). O índice ideal deve ficar abaixo de 1%, mas o monitoramento setorizado permite identificar bairros onde o risco explode. “Tem uns estratos lá que dá 14%, 15%, outros dá 5%, 3%. Aí o pessoal já fica de alerta”, explica o enfermeiro.
“Estamos usando o drone para acessar locais onde o dono não se encontra. Conseguimos visualizar piscinas e reservatórios para ir direto ao foco.” Erick Cayres
Para vencer os obstáculos físicos, a tecnologia entrou em campo. O uso de drones tem sido fundamental para fiscalizar imóveis fechados ou de difícil acesso. “A gente consegue visualizar piscina, reservatório de água, para tomar uma ação mais eficaz e ir direto ao foco”, detalha Cayres. O enfermeiro deposita sua confiança na expansão da cobertura vacinal como a virada de chave definitiva contra a doença. “A vacina é tudo. Eu confio muito. Na hora que conseguir chegar para todo mundo, vai ser ótimo”.
Além da tecnologia, o básico bem feito continua essencial. Mutirões de limpeza com cronograma divulgado em rádios e carros de som garantem que a população descarte entulhos na hora certa. O resultado desse cerco ao mosquito é sentido na ponta do atendimento: “A questão hospitalar, até agora no momento, está bem tranquila”, confirma Erick, ressaltando que o sinal de alerta só acende quando o volume de notificações começa a subir — o que, felizmente, ainda não ocorreu neste ciclo.
🎤 Erick fala sobre a situação de Araçuaí:
Entenda o risco da sua cidade
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